A riqueza da fecunda graça de Deus e a frutuosidade de uma fé obediente e perseverante (20)

A riqueza da fecunda graça de Deus e a frutuosidade de uma fé obediente e perseverante (20)
março 10 13:49 2019

6. Efeitos da fé salvadora

6.1. A nossa salvação

 

Mais uma vez enfatizamos a relação entre eleição e fé. Como creio ter ficado claro, Deus não nos elegeu na eternidade porque um dia teríamos fé; mas sim, para que tivéssemos fé: sem a graça de Deus não haveria fé.[1]

 

A fé é essencial à salvação como evidência da nossa eleição: Só os que creem serão salvos; só creem os eleitos! (1Ts 1.3,4; 2Ts 2.13; Tt 1.1). A fé não tem méritos salvadores; ela é apenas o instrumento gracioso de Deus para a apropriação da salvação preparada pelo Trino Deus para o Seu povo escolhido (Lc 8.12; At 16.31; 1Co 1.21; Ef 2.8; 2Ts 2.13).[2]

 

Schaeffer (1912-1984), se vale de uma figura apropriada:

Eu não me apresento presunçosamente pensando que posso salvar a mim mesmo, mas entregando-me ao trabalho completo de Cristo e às promessas escritas de Deus. Minha fé é simplesmente as mãos vazias com as quais aceito a dádiva de Deus.[3]

Os tópicos que se seguem estão relacionados diretamente com a nossa salvação; vamos destacá-los apenas para que possamos ter uma visão mais rica das bênçãos de Deus decorrentes da fé que Ele mesmo produziu em nós.

 

6.2. Recepção do Espírito Santo, sendo selados por Ele

 

Todos os crentes em Cristo receberam o Espírito Santo, sendo Ele mesmo a garantia da nossa salvação. (Jo 7.38,39; Gl 3.14). Todos são selados para sempre, usufruindo do conforto e direção do Espírito: “Em quem também vós, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho (eu)agge/lion) da vossa salvação, tendo nele também crido, fostes selados (sfragi/zw) com o Santo Espírito da promessa” (Ef 1.13). E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, a fim de que esteja para sempre convosco” (Jo 14.16).

 

Somos selados até o dia da redenção: “E não entristeçais o Espírito de Deus, no qual fostes selados para o dia da redenção” (Ef 4.30).

O selo foi realizado definitivamente. A palavra significa também “consignar”, “guardar”, “certificar” e “reconhecer”, indicando:

 

  • Autenticidade e confirmação: (Jr 32.10-11,44; Jo 33; 1Co 9.2; Gl 4.6-7). Somos verdadeiramente filhos de Deus;

 

  • Possessão: Como a grande importância do selo é jurídica, vemos neste emprego, o fato de pertencermos a Deus, porque fomos comprados com o Seu próprio sangue; somos possessão de Deus;

 

  • Proteção/privacidade: O selo era empregado para garantir uma boa conservação dos documentos e o sigilo de seu conteúdo (Is 29.11; Dn 12.4). Ninguém poderá separar-nos do amor de Deus que está em Cristo Jesus (Rm 8.38-39). É Deus mesmo Quem nos preserva intocáveis para o dia da redenção. Notemos que o selo normalmente é externo. Em nosso caso, o selo é interno; fomos selados pelo Espírito que em nós habita.

 

     O Espírito em nós é o selo de Deus garantindo a autenticidade e preservação de Sua propriedade até ao resgate final (2Co 1.22; 5.5; Ef 1.13,14/1Pe 2.9).[4] Somos o Templo do Espírito (1Co 3.16; 6.19). Fomos comprados pelo precioso sangue de Jesus e, agora, pertencemos ao Senhor (At 20.28; 1Co 6.20; 7.23; 1Pe 1.18-19).

 

O Espírito que hoje é a garantia do não mais domínio de Satanás sobre nós, é, ao mesmo tempo, o sinal da nossa total libertação futura da influência conducente de Satanás, do pecado e da carne.  “A nossa redenção ainda não se completou, mas está assegurada”.[5]

 

Comentando o texto de Efésios 1.13, escreveu Calvino:

 

Os selos imprimem autenticidade tanto aos alvarás como aos testamentos. Além disso, o selo era especialmente usado nas epístolas, para identificar o escritor. Em suma, um selo distingue o que é genuíno e indubitável do que é inautêntico e fraudulento. Tal ofício Paulo atribui ao Espírito Santo, não só aqui, mas também no capítulo 4.30 e em 2 Coríntios 1.22. Nossas mentes jamais se fazem suficientemente firmes, de modo que a verdade prevaleça conosco contra todas as tentações de Satanás, enquanto o Espírito não nos confirme nela. A genuína convicção que os crentes têm da Palavra de Deus, acerca de sua própria salvação e toda religião, não emana das percepções da carne, ou de argumentos humanos e filosóficos, e, sim, da selagem do Espírito, o que faz suas consciências mais seguras e todas as dúvidas removidas. O fundamento da fé seria quebradiço e instável, se porventura ela repousasse na sabedoria humana; portanto, visto que a pregação é o instrumento da fé, por isso o Espírito Santo torna a pregação eficaz.[6]

 

O selo do Espírito nos distingue de tudo o mais. O Espírito é a autenticação[7] definitiva, verdadeira[8] e inviolável de nossa salvação. Ele é o sinal do futuro em nós e a garantia de sua consumação.[9] No selo vemos exemplificada a autoridade de seu autor e a garantia de que o conteúdo do que foi selado seja preservado em segurança (Vejam-se: Mt 27.66/Dn 6.17; Rm 15.28 [ARA: “Consignado”]).

 

Deus nos concedeu o Espírito como um selo de inviolabilidade e preservação. O Espírito mesmo é Quem constitui os Presbíteros para pastorearem o rebanho do Sumo Pastor que é Deus, até que Cristo volte (At 20.28/1Pe 5.1-4). Notemos, portanto, que ao mesmo tempo em que Ele age em nós individualmente, atua por meio de Seus servos para a edificação e preservação do povo de Deus.

 

O Espírito em nós, é a garantia presente e maravilhosamente real, de que participaremos da plenitude da Sua herança reservada para os Seus.[10] Assim, podemos dizer com Berkhof (1914-1995) que, “o Novo Testamento nada sabe de uma escatologia futurista ou de uma escatologia realizada, senão de uma escatologia em realização”.[11]

 

 

Maringá, 05 de março de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

*Este post faz parte de uma série. Acesse aqui a série completa

 


 

[1] “É pela fé que nos apropriamos da graça de Deus, a qual está oculta e é desconhecida do entendimento carnal” (J. Calvino, O Livro dos Salmos, v. 1, (Sl 13.5), p. 267).

[2] Veja-se: Anthony A. Hoekema, Salvos pela Graça, São Paulo: Cultura Cristã, 1997, p. 195.

[3] Francis A. Schaeffer, O Deus Que Intervém, São Paulo: Refúgio; ABU, 1981, p. 208. Figura semelhante encontramos em outros autores:  “A fé é, por assim dizer, a mão pela qual o pecador recebe a salvação oferecida por Deus” (R.B. Kuiper, Evangelização Teocêntrica,São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1976, p. 20). “A salvação é um dom, e o pecador não contribui com nada, tendo apenas as mãos vazias estendidas para recebê-la. Mesmo esse simples ato de fé em si mesmo é da iniciativa divina, e não pela autogeração autônoma. A fé salvadora é, em si mesma, um dom, não uma capacidade natural pela qual simplesmente decidimos concentrar em Cristo como um objeto de nossa confiança” (R.K. McGregor Wright, A Soberania Banida, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1998, p. 102). “Fé é a mão vazia e estendida que recebe a retidão ao receber a Cristo” (J.I. Packer, Vocábulos de Deus, São José dos Campos, SP.: Fiel, 1994, p. 131). Outra figura instrutiva: “A fé, realmente, a comparamos como a um vaso, porque, salvo se, ao buscar a graça de Cristo, nos achegamos a ele vazios, com a boca da alma aberta, jamais seremos capazes dele” (João Calvino, As Institutas, III.11.7).

[4] Veja-se: John Owen, Two Discourses Concerning the Holy Spirit and His Work. In: The Works of John Owen, [CD-ROM], (Ages Software, 2000), v. 4, p. 504ss. “A ideia de selar é tirada da prática antiga de selar documentos reais especiais. Documentos eram autenticados apertando o anel com sinete do rei em cera, deixando uma impressão que indica a posse e autorização da realeza. Em certo sentido, o Espírito age como o anel de sinete do rei divino. Ele faz um sinal indelével em nossas almas, indicando ser dono de nós. Um selo também era usado para evitar uma invasão. Assim como o túmulo de Cristo foi selado para evitar violação por ladrões, assim nós somos selados para evitar que o maligno nos arrebate dos braços de Cristo” (R.C. Sproul, O Que é Teologia Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 172).

[5] Walter T. Conner, A Obra do Espírito Santo, Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista, 1961, p. 114.

[6]João Calvino, Efésios, São Paulo: Paracletos, 1998, (Ef 1.13), p. 36.

[7] Paulo fala que os crentes em Corinto se constituem no “selo”, a legitimação do seu apostolado: Se não sou apóstolo para outrem, certamente, o sou para vós outros; porque vós sois o selo (sfragi/j) do meu apostolado no Senhor” (1Co 9.2/1Co 4.14-15; 2Co 3.1-3; 6.13).

[8] “Entretanto, o firme fundamento de Deus permanece, tendo este selo (sfragi/j): O Senhor conhece os que lhe pertencem. E mais: Aparte-se da injustiça todo aquele que professa o nome do Senhor” (2Tm 2.19).

[9] Cf. Gordon D. Fee, Paulo, o Espírito e o Povo de Deus, Campinas, SP.: Editora United Press, 1997, p. 59-60.

[10] Veja-se: A.A. Hoekema, Salvos pela Graça, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1997, p. 38.

[11]Hendrikus Berkhof, La Doctrina del Espíritu Santo, Buenos Aires: Junta de Publicaciones de las Iglesias Reformadas; Editorial La Aurora, (1969), p. 118. Do mesmo modo entende Morris (1914-2006): “Uma escatologia puramente ‘realizada’ é calamitosa, tanto por não se ajustar à mensagem do Novo Testamento como por suas trágicas consequências” (Leon Morris, A Doutrina do Julgamento na Bíblia: In: Russel P. Shedd; Alan Pieratt, eds. Imortalidade, São Paulo: Vida Nova, 1992, p. 53).

Fonte: www.hermisten.com.br

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