Eu quero sossego – 03/05/2019

Eu quero sossego – 03/05/2019
maio 03 10:07 2019

A obra de Cristo é o que torna possível os pecadores viverem doxologicamente e trabalharem em obediência a Deus – Ray Pennings.[1]

Trabalho pode ser definido como o esforço físico ou intelectual, com vistas a um determinado fim. O verbo “trabalhar” é proveniente do latim vulgar tripaliar: torturar com o tripallium.

No entanto, o trabalho não está associado ao pecado, antes, faz parte do propósito primeiro de Deus para o homem e revela a sabedoria divina (Gn 1.28; 2.15; Ex 20.9; Sl 104.23; Is 28.23-29). Os rabinos, como exemplo desta perspectiva, além do estudo metódico da Lei, aplicavam-se ao trabalho manual para suprir às suas necessidades (Vejam-se: Mc 6.3; At 18.3). Este conceito foi perdido ao longo dos séculos.

A Reforma resgatou o conceito cristão de trabalho, fazendo uma crítica fundamental à concepção monástica medieval, eliminando, por exemplo, a distinção entre vida activa representada por Marta e a vida contemplativa representada por Maria (Lc 10.38-42), sendo este o modelo do caminho monástico.

Na ética do trabalho, Lutero (1483-1546) e Calvino (1509-1564) estavam acordes quanto à responsabilidade do homem de cumprir a sua vocação por meio do trabalho. Não há lugar para ociosidade. Com isto, não se quer dizer que o homem deva ser um ativista, mas sim, que o trabalho é uma vocação divina.

O amor ao próximo faz com que o nosso honesto trabalho não se limite a satisfazer as nossas necessidades, mas, também, a ajudar aos nossos irmãos.

O trabalho está relacionado com o progresso de toda a raça humana, logo, a um crescimento sustentável. Pregando no Livro de Efésios, Calvino instrui aos pais. Podemos resumir assim:

Atente cada um com diligência para consigo, e os pais, querendo dirigir os filhos a quaisquer empregos, não tenham esse costume a que se têm habituado de dizer: Qual profissão será a mais rendosa? Antes, estes dois aspectos se conjuguem, isto é, quando houver considerado em que é que meu filho poderá ganhar a vida e, quando estiver casado, como proverá para si e sua família? Que sirva ao próximo e o uso de sua arte e de sua profissão redunde no proveito comum de todos.

Assim, pois, por essa razão, impõe-nos ter sempre diante dos olhos que, em qualquer estado que vivamos, é necessário que Deus marche adiante, como se a si nos chamasse e nós seguíssemos o caminho que por sua Palavra nos mostra. Certo é que jamais profissão alguma será dele aprovada se não for útil, e se o público não for dela servido, e se também não redundar em proveito de todos.[2]

O ganho ilícito, por meio do qual o patrimônio de nosso próximo é dilapidado, é, na realidade – independentemente do nome que se dê –, não um sinal de inteligência, mas, de iniquidade: é, portanto, uma forma de furto.

O trabalho honesto, fruto do nosso labor é que deve ser a fonte de recursos para a manutenção de nossa família. Não devemos nos aproveitar das necessidades alheias, vivendo simplesmente de transações financeiras ou de explorações variadas. Um princípio justo é que em todas as negociações, haja benefícios para ambas as partes.

A grandeza de nosso trabalho não está simplesmente no que fazemos, mas como e com qual objetivo o fazemos. É agradável a Deus que por meio de nosso trabalho a sociedade seja beneficiada.

Precisamos aqui enfatizar alguns pontos já vistos. As Escrituras nos ensinam que Deus nos criou para o trabalho (Gn 2.8,15). O trabalho, portanto, faz parte do propósito de Deus para o ser humano, sendo objeto de satisfação humana (Sl 104.22-23).

Na concepção cristã, o trabalho dignifica o homem, devendo o cristão estar motivado a despeito do seu baixo salário ou do reconhecimento humano; embora as Escrituras também observem que o trabalhador é digno do seu salário (Lc 10.7). Seu trabalho deve ser entendido como uma prenda feita a Deus, independentemente dos senhores terrenos. Deste modo, o que de fato importa, não é o trabalho em si, mas sim o espírito com o qual ele é feito; a dignidade deve permear todas as nossas obras, visto que as realizamos para o Senhor e pela capacitação do Senhor. O nosso trabalho revela a nossa percepção de Deus e de Sua Criação.

A prestação de contas de nosso trabalho deverá ser feita a Deus; é Ele com o seu escrutínio perfeito e eterno Quem julgará as obras de nossas mãos, daí a recomendação do Apóstolo Paulo (Cl 3.17,22-4.1/Ef 6.5-9).

Portanto, não há desculpas para a fuga do trabalho, mesmo em nome de um motivo supostamente religioso (1Ts 4.9-12/Ef 4.28; 1Tm 5.11-13).

Deus abençoa o primeiro casal com a capacidade de procriar-se (Gn 1.22), colocando também, grande parte da criação para o seu alimento (Gn 1.26-30; 2.9). Como indicativo da posição elevada em que o homem foi colocado, o Criador compartilha com ele do poder de nomear os animais, e também de dar nome à sua mulher (Gn 2.19,20,23; 3.20). E mais: Deus delega-lhe poderes para cultivar e guardar o jardim do Éden (Gn 2.15), demonstrando a sua relação de domínio sobre a natureza. No entanto, todas estas atividades envolvem o trabalho compartilhado por Deus com o ser humano. O nomear, procriar, dominar, guardar e cultivar refletem a graça providente e capacitante de Deus.

Portanto, desde o início, o homem é um ser que trabalha. A sua mão é uma arma “politécnica”, instrumento exclusivo e incomparável de construção, reconstrução e transformação. Faz parte da essência do homem trabalhar.

O trabalho é algo bom em si mesmo, não simplesmente pelo que ele proporciona. O homem é um artífice que constrói, transforma, modifica; a sua vida é um eterno devir, que se realiza no fazer como expressão do seu ser orientado e direcionando para valores que acredita serem relevantes. Portanto, o trabalho deve ter sempre um sentido axiológico. O ser como não pode se limitar ao simples fazer, está sempre à procura de novas criações, que envolvem trabalho.

No trabalho o homem concretiza a sua liberdade de ser. Por isso, nunca poderemos ter como meta da sociedade, a ausência do trabalho. O homem foi criado para o trabalho não para permanecer na inatividade e indolência. Portanto, aposentar-me de um determinado trabalho não significa abandonar a condição de “ser” que trabalha.

No trabalho nós expressamos e aperfeiçoamos a nossa humanidade, cumprindo a nossa vocação. Deixar de trabalhar significa deixar de utilizar parte da sua potência, equivale a deixar parcialmente de ser homem; em outras palavras, seria uma desumanidade.

O nosso trabalho, portando, antes de a senhores terrenos, deve servir como uma prenda oferecida a Deus, Aquele que nos chama e capacita a servi-lo de forma glorificante. Nada mais repousante, do que a convicção de que estamos atendendo a nossa vocação na esfera que Deus nos colocou. Deste modo, o que eu quero, é sossego: o desafio, a alegria e o conforto de servir a Deus nas coisas mais simples e complexas que ele me chamar a fazer. Em síntese: o sossego da obediência.

 

São Paulo, 29 de abril de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

Fonte: www.hermisten.com.br

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