TRILOGIA: ERA UMA VEZ UM PAI E DOIS FILHOS

maio 16 06:25 2019

Aproveitando o tempo que antecede o período pascal, retorno a estabelecer o diálogo com os leitores deste jornal, dando continuidade a série de reflexões, tendo como referência a narrativa bíblica que trata da história de um pai e dois filhos, conhecida como a Parábola do Filho Pródigo. Insisto na figura do filho mais novo, destacando os seus movimentos de sair da casa do pai a ela voltar depois de uma frustrada experiência.

O ato de sair não é um movimento simples e não acontece de repente e nem somente por causa de uma necessidade emergente. Há fatores atrelados ao próprio ciclo da vida humana, como um filho ou uma filha que se casa e transfere-se para outro local. Não vemos isso como algo ruim. Entretanto, há estressores relacionais que acabam empurrando as pessoas a romperem com essas relações primárias. Esses estressores decorrem de situações de conflitos internos e pessoais, mas também de conflitos relacionais, envolvendo outras pessoas do grupo de pertença.

Na narrativa em apreço, o filho mais novo parece vincular sua razão de sair em duas forças internas muito comuns. A primeira delas é a idealização de um cenário fantasioso de bem-estar e liberdade. Normalmente, este cenário não existe como realidade. Ele está na mente e é construído sem parâmetros de realidade. A segunda força pode estar associada a um cenário de dissociação de ideais no ambiente de origem. Ocorre que a primeira força, ou seja, a da idealização de uma fantasia, pode resultar de cenários relacionais em descompasso. No segundo texto desta série, pontuei genericamente essas duas forças. No texto de hoje, os retomo para melhor elucidação das forças que provocam as saídas.

Boa parte das tensões que ocorrem nas relações humanas se desgastam com o passar do tempo. Entretanto, o tempo, uma realidade não racional e impessoal, não é o fator de quebra dessas relações. O desgaste e até o rompimento de relações humanas estão vinculados aos problemas próprios da natureza humana. Quero dizer com isso que, os próprios seres humanos são a causa dos desencantamentos relacionais e afetivos. Para nós, pelo menos agora, não é relevante apontar quem faz a vez de estressor ou quem seja a vítima. Entrar por este caminho de análise é como seguir por um túnel desconhecido sem a capacidade de estimar onde ele termina. A verdade é que todos os membros de um grupo qualquer são responsáveis para desempenhar papéis comuns para a sua coesão ou para a sua desagregação.

Na narrativa do filho pródigo, o filho caçula simplesmente pede a parte dos bens. O foco dele está no que ele tem direito e não nas pessoas (seu irmão e seu pai). Sobre os bens ele coloca o seu coração e o seu desejo e, então, solicita a liberação do seu pai. O bem e o ato de sair estão vinculados. O que não é parte deste vínculo é o afeto do filho para com o pai. Isso não significa que ele não amasse o seu pai ou nada sentisse por ele. O que quero mostrar é que quando somos arrebatados por uma força interior cheia de desejos, a gente acaba encontrando outros argumentos para romper os relacionamentos. A questão do amor e do afeto estão sufocados em circunstâncias como esta e só ressurgirão numa extrema necessidade, culminando em um retorno. Por isso, há esperança sempre!!!

A segunda força está direcionada para a idealização de um cenário de possiblidades e essa transferência relacional ocorre sempre que as associações primárias estão enfraquecidas. Certamente, o jovem rapaz projetou em sua mente um quadro viável em todos os sentidos, incluindo, inclusive, que os bens, no caso a herança, lhe dariam suporte perene. Veja bem que interessante: o ser humano não tem esta atitude somente quando se vê munido de bens. Ele também constrói esta idealização com afeto, amor e paixão. Assim, entrega-se para este cenário, acreditando que não lhe faltará sentimentos para prover às suas paixões.

Ocorre que tudo isso se esgota, dinheiro, prazer e paixão. Se se admite que os recursos naturais são escassos, acredite, caro(a) leitor(a), os emocionais também são e, talvez, esses se perdem mais rapidamente.

Não foi a perda das pecúnias que levou o jovem a comer a ração de animais. Foi a sua impetuosa paixão e desejo numa idealização forjada na mente, de uma realidade que julgou que seria melhor. Ele estava enganado, quando percebeu a realidade tal qual ela é, viu-se em sofrimento.

Escute bem! É preciso que cuidemos das emoções, dos impulsos, caso contrário, sem melhor discernimento das forças que nos separam e das forças que nos empurram para um cenário irreal, viveremos sempre na berlinda das relações, frustrados, desamparados e solitários, causando a nossa própria dor e a dor daqueles que nos amam. Pense nisso!

Não terminamos a nossa história. Ela tem um desfecho e uma proposta. Lembre-se: Há esperança para toda e qualquer situação, sobretudo, quando somos capazes de ouvir a mesma doce voz que Cristo ouvir: “Eis meu filho amado…”. Sim, todos nós, sejamos como o filho mais novo ou o filho mais velho, somos filhos amados de Deus. Este é um assunto para mais tarde e dele vamos tratar.

 

Valter Moura

Pastor da Igreja Presbiteriana Esperança, em Brasília/DF

Email: valter-moura@uol.com.br – WhatsApp: (61) 98152-5488

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