Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (3) Por Hermisten Maia 12/06/2019

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (3) Por Hermisten Maia 12/06/2019
junho 12 06:00 2019

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (3)

1.2. É edificada por Cristo

 

Ainda que Deus seja suficiente a si mesmo e se satisfaça exclusivamente consigo mesmo, não obstante quer que sua glória se manifeste na Igreja. − João Calvino.[1]

 

“Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja” (Mt 16.18).

 

A igreja não é uma criação tardia, um plano “b” ou, um adendo de Deus dentro de seus desígnios “impotentes”. Antes, ela sempre fez parte do propósito eterno de Deus. A Igreja é edificada pelo próprio Cristo.

 

 “Edificarei a minha igreja”, afirma o Senhor Jesus. A igreja não pertence a terceiros. Ela é do Senhor. Ele mesmo a edifica. A expressão “minha igreja” indica a relação pessoal que o Senhor mantém com o seu povo. A Igreja é edificada pessoalmente pelo próprio Cristo. Deus não confiou esta tarefa a mais ninguém. A igreja não é uma abstração divina que permanece num plano ideal distante da realidade e inatingível. Ela se concretiza pelo poder de Deus. A história é, em grande parte, o processo executivo de Deus na realização de seu desígnio sábio e santo. Somos a família de Deus formada por Ele conforme sua livre vontade.

 

Como temos insistido, Paulo escreveu aos Efésios:

 

19Assim, já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e sois da família de Deus, 20edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular; 21no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para santuário dedicado ao Senhor, 22no qual também vós juntamente estais sendo edificados para habitação de Deus no Espírito (Ef 2.19-22).

 

Na criação de nossos primeiros pais, Adão e Eva, temos a concretização histórica do propósito eterno de Deus,[2] como nos diz o apóstolo:

 

8Não te envergonhes, portanto, do testemunho de nosso Senhor, nem do seu encarcerado, que sou eu; pelo contrário, participa comigo dos sofrimentos, a favor do evangelho, segundo o poder de Deus, 9 que nos salvou e nos chamou com santa vocação; não segundo as nossas obras, mas conforme a sua própria determinação e graça que nos foi dada em Cristo Jesus, antes dos tempos eternos. (2Tm 1.8-9).

Paulo, servo de Deus e apóstolo de Jesus Cristo, para promover a fé que é dos eleitos de Deus e o pleno conhecimento da verdade segundo a piedade, 2na esperança da vida eterna que o Deus que não pode mentir prometeu antes dos tempos eternos. (Tt 1.1-2).

 

O Senhor tem ao longo da história edificado a sua igreja. A confissão da identidade do Filho é fundamental para o ingresso na Igreja. Essa confissão se torna possível pela graça reveladora de Deus (Mt 16.16,17). Essa revelação é feita de acordo com o propósito de Deus. Nenhum de nós, jamais confessaria a Cristo sem o poder de Deus respaldado na obra de Cristo (Mt 16.19). Ou seja: a nossa confiança não é vazia. Ela tem como referência fundamental a veracidade da obra vicária e completa de Cristo.

 

Em outro contexto vemos que o que Paulo fala sobre a necessária confissão do senhorio de Cristo tem como pano de fundo, a obra realizada por Jesus Cristo: “Se, com a tua boca, confessares Jesus como Senhor e, em teu coração, creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Porque com o coração se crê para justiça e com a boca se confessa a respeito da salvação” (Rm 10.9-10).

 

Há uma coerência lógica: crer e confessar. O crer, no entanto, é precedido pelo conhecer. “Tudo me foi entregue por meu Pai. Ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Mt 11.27).

 

            Poder conhecer a Deus é sempre uma iniciativa da graça divina. O nosso conhecimento é um ato de fé, e esta é procedente da graça.[3] O conhecer, portanto, é um ato da graça de Deus. Sem o Pai que se agencia pelo Espírito, jamais conheceríamos salvadoramente a Jesus como o Cristo e Senhor.[4] “O verdadeiro mistério só pode ser entendido como um mistério genuíno mediante a revelação”, escreve Brunner.[5] Isso é graça! (2Pe 3.18).

 

            O apóstolo faz eco a essa graça, escrevendo: “Por isso, vos faço compreender que ninguém que fala pelo Espírito de Deus afirma: Anátema, Jesus! Por outro lado, ninguém pode dizer: Senhor Jesus!, senão pelo Espírito Santo” (1Co 12.3).

 

A Igreja é o Corpo de Cristo; o povo constituído por Deus por intermédio do seu Espírito, para cultuá-Lo, viver a sua Palavra e proclamar a sua salvação em Cristo.[6] Portanto, é o Deus Trino quem elege o seu povo e o chama eficazmente por meio da Palavra, para fazer parte da sua Igreja.  O próprio Senhor Jesus nos instrui:

 

37Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora. (…) 44 Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia. (…)  65 E prosseguiu: Por causa disto, é que vos tenho dito: ninguém poderá vir a mim, se, pelo Pai, não lhe for concedido (Jo 6.37,44,65).

 

Quando o apóstolo Paulo fala aos presbíteros de Éfeso, lhes instrui: “Agora, pois, encomendo-vos ao Senhor e à palavra da sua graça, que tem poder para vos edificar e dar herança entre todos os que são santificados”(At 20.32).

 

A forma ordinária da qual Deus se vale para edificar a sua igreja é por meio da Palavra. Ele nos regenera (1Pe 1.23); chama (Rm 10.17), edifica e santifica (Jo 17.17) pela Palavra.

 

Paulo diz que passou três anos pregando todo o desígnio de Deus (At 20.27,31). Ele não se deteve em sabedoria humana, em debates frívolos ou em exibicionismo de saber, antes anunciou o Evangelho da graça de Deus (At 20.24).

 

            Calvino também não se deixou levar por essa tentação. Em 1551, escreveu em resposta a uma carta de Laelius Socino (1525-1562),[7] onde ele fazia várias especulações:

 

Certamente, ninguém pode ser mais adverso ao paradoxo do que eu, e não tenho nenhum deleite em sutilezas. No entanto, nada jamais me impedirá de confessar abertamente aquilo que tenho aprendido da Palavra de Deus, pois nada, senão o que é útil, é ensinado na escola desse mestre. Ela é meu único guia, e aquiescer às suas doutrinas manifestas será a minha constante regra de sabedoria. (…) Se você tem prazer em flutuar em meios a essas especulações etéreas, permita-me, peço-lhe eu, humilde discípulo de Cristo, meditar naquilo que conduz à edificação da minha fé.[8]

 

Por isso, Paulo quando se despede, prevê as dificuldades que viriam, surgidas muitas delas dentro da própria Igreja,[9] até mesmo, é possível, da parte de presbíteros (At 20.29-30),[10] no entanto, ele não estabelece nenhum método mirabolante, antes os orienta a ficarem atentos – contínua e perseverantemente[11] – e os encomenda à Palavra (At 20.31-32).[12] Demonstra também a necessidade de autovigilância (At 20.28).

 

Stott (1921-2011) comenta:

 

Notamos que os pastores efésios devem primeiro vigiar a si mesmos, e só depois ao rebanho que lhes foi confiado pelo Espírito Santo. Pois eles não podem dar um cuidado adequado aos outros se negligenciarem o cuidado e a instrução de suas próprias almas.[13]

 

A Palavra de Deus é um antídoto contra os lobos vorazes que desejam se apossar do rebanho e contra os homens pervertidos que procuram corromper o povo de Deus. A Palavra é poderosa para nos edificar e santificar. Por isso, caberia àqueles presbíteros, pregar a Palavra, assim como Paulo o fizera. “A Igreja e o evangelho são inseparáveis. (…) A Igreja é tanto o fruto como o agente do evangelho, visto que por meio do evangelho a igreja se desenvolve e por meio desta se propaga aquele”, interpreta Stott.[14]

 

Em Corinto, a despeito de grupos na igreja desejarem moldar o Evangelho às suas preferências e gostos pessoais, o apóstolo Paulo continuava firme, sem tergiversar em sua mensagem:

 

22Porque tanto os judeus pedem sinais, como os gregos buscam sabedoria; 23mas nós pregamos a Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os gentios. (…) 4A minha palavra e a minha pregação não consistiram em linguagem persuasiva de sabedoria, mas em demonstração do Espírito e de poder, 5para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria humana; e, sim, no poder de Deus (1Co 1.22-23; 2.4-5).

 

Deus fornece-nos todos os meios para o nosso crescimento; precisamos, portanto, aprender na própria Palavra, a nos valer desses meios:

 

Pedro instrui a igreja:

 

Pelo seu divino poder nos têm sido doadas todas as cousas que nos conduzem à vida e à piedade, pelo conhecimento completo daquele que nos chamou para a sua própria glória e virtude, pelas quais nos têm sido doadas as suas preciosas e mui grandes promessas para que por elas vos torneis coparticipantes da natureza divina, livrando-vos da corrupção das paixões que há no mundo (2Pe 1.3-4).

 

O método escolhido por Deus para edificar e preservar a sua Igreja é a pregação da Palavra. Paulo é enfático: Aprouve (eu)doke/w)[15] a Deus salvar aos que creem, pela loucura da pregação” (1Co 1.21).

 

Ao longo da História o Espírito tem estabelecido a Igreja, chamando por meio da Palavra os homens para constituírem a Igreja de Deus. “Do mesmo modo que o Espírito Santo formou o corpo físico de Jesus Cristo na encarnação, assim também forma o corpo místico de Jesus Cristo, ou seja, a igreja”, interpreta Palmer 1922-1980).[16]

 

A Igreja de Deus está sendo formada e aperfeiçoada. Por isso, ela não é perfeita, mas, está sendo lapidada pelo próprio Deus: 21no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para santuário dedicado ao Senhor, 22no qual também vós juntamente estais sendo edificados para habitação de Deus no Espírito” (Ef 2.21-22).

 

Lutero (1483-1546) trata dessa questão de modo sensibilizante, descrevendo a sua luta e a fragilidade aparente da igreja:

 

Nós, pela graça de Deus, esforçamo-nos para conseguir, aqui, em Wittenberg, um tipo ideal de Igreja cristã. A Palavra é ensinada entre nós com pureza, os sacramentos estão sendo usados de forma correta, fazem-se exortações e orações para todas as situações, em suma, todas as coisas ocorrem favoravelmente. Mas algum fanático poderia impedir rapidamente este curso feliz do Evangelho. Num momento, ele poderia destruir aquilo que nós edificamos com grande labor durante muitos anos. (…) A fraqueza e a miséria dessa vida é tão grande, caminhamos a tal ponto em meio aos ardis de satanás que, em pouco tempo, algum fanático, muitas vezes, destrói e arruína, completamente, aquilo que os verdadeiros ministros edificaram, trabalhando, dia e noite, durante vários anos. Por experiência própria, aprendemos isso, hoje, com grande dor na alma, todavia, não podemos curar esse mal.

Visto que a Igreja é tão frágil e delicada e é tão facilmente subvertida, devemos estar vigilantes contra aqueles espíritos fanáticos que, quando ouviram alguns sermões ou leram algumas páginas nas Sagradas Letras, sem demora, julgam-se mestres de todos os alunos e professores, contra toda a autoridade.[17]

 

A igreja de Deus nessa dimensão terrena, ainda luta contra os inimigos de fora e, a sua própria fragilidade interna resultante de seu pecado e acomodação nele.

 

Por isso, “as imperfeições e as marcas na igreja visível ainda estão sendo refinadas pelo Mestre de obras”, alegoriza MacArthur.[18]  Explorando a figura, podemos dizer que a igreja está em construção: um canteiro de obras com frequência não faz jus à obra que está sendo feita; as coisas se parecem um tanto desarrumadas, com pilhas de tijolos, areia, pedra, ferro, madeira, ferramentas jogadas, escombros, valetas, etc.

 

Assim é a igreja no tempo presente, com suas imperfeições, constituída por pessoas como nós, precisando ser instruídas, corrigidas, consoladas, estimuladas, enfim, precisando ser acabadas. No entanto, o nosso Arquiteto e Mestre de obras tem todo o controle da construção. Ele consumará a sua obra. Ele reunirá as suas ovelhas: “Ainda tenho outras ovelhas, não deste aprisco; a mim me convém conduzi-las; elas ouvirão a minha voz; então, haverá um rebanho e um pastor” (Jo 10.16).

 

Deus arregimenta o seu povo, concluindo assim, a sua obra iniciada na eternidade:

 

29 Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. 30 E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou. (Rm 8.29-30).

 

Packer, bem ao seu estilo, escreve de forma consoladora:

 

Essa esperança é uma certeza, pois a sentença justificadora é uma decisão judiciária do último dia, trazida ao presente: é um veredito final, que jamais será revertido. “E aos que justificou, a esses também glorificou” (Rm 8.30). Observemos que Paulo usa o verbo “glorificar” no passado. Aquilo que Deus decidiu fazer é como se já o tivesse feito!. De acordo com isso, a pessoa justificada pode ter a certeza de que coisa alguma jamais a separará do amor de seu Salvador e de seu Deus (Rm 8.35ss.).[19]

 

Maringá, 6 de junho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

FOnte: www.hermisten.com.br

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