A lenda do Corpus Christi e o significado real da Ceia do Senhor (1)

A lenda do Corpus Christi e o significado real da Ceia do Senhor (1)
junho 25 11:30 2019

A celebração da festa de Corpus Christi (Corpo de Cristo, ou Corpo de Deus), é originária do século XIII na Bélgica, estando entremeada de lendas e superstições. Ao que parece a sua criação visava, entre outras coisas, dar maior destaque na litúrgica da “quinta-feira santa” à Ceia ao invés de enfatizar, como estava acontecendo, à traição de Judas.[1] A sua alusão histórica é à quinta feira anterior à autoentrega de Jesus Cristo na cruz, quando nosso Senhor instituiu a Ceia com seus discípulos, que também é conhecida como Santa Ceia, Mesa do Senhor e Eucaristia.

 

A Santa Ceia foi instituída por Cristo, o Senhor e Cabeça da Igreja, para o nosso benefício espiritual, visando ao nosso alimento, fortalecimento e crescimento. Verifica-se, desde o início da igreja do Novo Testamento que a Ceia do Senhor é uma das mais importantes instituições da igreja cristã. Paulo recrimina os crentes de Corinto, justamente porque eles não estavam discernindo este ponto fundamental em suas reuniões: “Nisto, porém, que vos prescrevo, não vos louvo, porquanto vos ajuntais, não para melhor; e, sim, para pior” (1Co 11.17).

 

Os crentes de Corinto faziam da Santa Ceia uma ceia comum e ainda mais, da pior espécie, “transformando a igreja em um piquenique para glutonaria”,[2] visto que servia para ostentação dos mais ricos, dando ocasião, de um lado, à vaidade, glutonaria e à embriaguez e, de outro, à humilhação e fome (1Co 11.21,22),[3] Ambas as consequências, eram o resultado do não discernimento do significado da Ceia do Senhor.

 

Analisemos alguns aspectos que devem reger a participação do fiel na Santa Ceia.

1. Participação na Ceia

 

Na narrativa da instituição da Ceia, lemos:

 

Enquanto comiam, tomou Jesus um pão e, abençoando-o, o partiu e o deu aos discípulos, dizendo: Tomai, comei; isto é o meu corpo. A seguir tomou um cálice e, tendo dado graças, o deu aos discípulos, dizendo: Bebei dele todos; porque isto é o meu sangue, o sangue da nova aliança, derramado em favor de muitos, para remissão de pecados. E digo-vos que, desta hora em diante, não beberei deste fruto da videira, até aquele dia em que o hei de beber, novo, convosco no reino de meu Pai (Mt 26.26-29).

 

O Apóstolo Paulo relatando este acontecimento, escreve:

 

Porque eu recebi do Senhor o que também vos entreguei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; e, tendo dado graças, o partiu e disse: Isto é meu corpo que é dado por vós; fazei isto em memória de mim. Por semelhante modo, depois de haver ceado,      tomou também o cálice, dizendo: Este cálice é a nova aliança no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que o beberdes, em memória de mim (1Co 11.23-25).

 

Aqui temos também a indicação não somente de que a Ceia fazia parte da vida da Igreja, mas também, de que ela deveria continuar a ser praticada. O tempo verbal de “fazei isto” (1Co 11.24), indica uma atitude contínua: “Fazei isso e permanecei fazendo sempre…”.

2. “Recordação amorosa”

 

O sacrifício de Cristo, o Deus encarnado, em favor do Seu povo, é o marco decisivo de nossa salvação. Considerando isso, a participação na Ceia do Senhor exercita a nossa “memória amorosa”, fazendo-nos lembrar, com gratidão, do sacrifício remidor de Cristo. “Fazei isto em memória de mim” (1Co 11.24). A Ceia traz sempre à memória a nossa condição de pecadores totalmente impossibilitados de alcançar a salvação. Se não fosse a obra graciosa, voluntária e sacrifical de Cristo em nosso favor, jamais seríamos salvos (Gl 1.4; Ef 5.2).[4]

 

Ao mesmo tempo, a Ceia traz à tona o novo pacto feito por Deus com o Seu povo, que consiste na sua restauração. Aqui rememoramos:

 

a) O contexto da instituição da Ceia estava diretamente relacionado à Páscoa (Ex 12.1-13; Lc 22.7-22; 1Co 5.7). Jesus Cristo como Cordeiro sem defeito, por meio do seu sangue marcou para sempre o Seu povo, o reconciliando com Deus, o livrando da ira presente e futura.

Enquanto que a Páscoa nos falava de um sacrifício repetido como fato histórico, ela adquire na Ceia o sentido não mais de sacrifício, mas de fato consumado pelo sacrifício perfeito de Cristo.

 

b) A aliança de Deus feita com Israel, registrada no capítulo 24 do Livro de Êxodo.

 

     “Então tomou Moisés aquele sangue e o aspergiu sobre o povo, e disse: Eis aqui o sangue da aliança que o Senhor fez convosco a respeito de todas estas palavras”(Ex 24.8).

 

c) Bem como a aliança profetizada por Jeremias, que apontava para o futuro não muito distante:

 

Eis aí vem dias, diz o Senhor, e firmarei nova aliança com a casa de Israel e com a casa de Judá (…). Porque esta é a aliança que firmarei com a casa de Israel, depois daqueles dias, diz o Senhor. Na mente lhes imprimirei as minhas leis, também no coração lhes inscreverei; eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo (Jr 31.31,33).

 

d) O novo pacto firmado por Deus com a Sua Igreja também envolve o derramamento de sangue – já que “sem derramamento de sangue não há remissão” (Hb 9.22) –, só que agora, o sangue derramado não é de animais, mais o sangue precioso de Cristo, o “nosso Cordeiro pascal” (1Co 5.7 – Jo 19.33,36), que se entregou em favor de muitos. Portanto, “O novo concerto foi ratificado por meio de Seu sangue”.[5]

 

Jesus, conforme a narrativa de Mateus, diz: “… Isto é o meu sangue, o sangue da nova aliança, derramado em favor de muitos, para remissão de pecados” (Mt 26.28).

 

Participar da Ceia significa reavivar em nós a confiança no Pacto de Deus conosco firmado no passado, que nos garante a certeza da vida eterna.

 

E mais: o Senhor se despediu de sua igreja fisicamente (Mt 26.11; Jo 14.2,4; 16.7,28; 17.24; At 1.1.9-11; 7.56; Ef 4.10; Cl 3.1; Hb 7.26).[6] Da forma como Ele esteve com os Seus discípulos, fisicamente, Ele não está mais com a igreja nesta dispensação. Agora, fisicamente, com seu corpo glorificado Ele permanece no céu, de onde O aguardamos (At 1.11; Fp 3.20-21; 1Ts 1.10; 4.16).[7] Porém, Ele está conosco, não menos intensamente, por meio do Seu Espírito.[8] (Rm 8.9; Gl 4.6/Fp 1.19/At 16.7).[9] O Senhor Jesus não nos deixou órfãos. Ele, Ele mesmo está conosco aqui e agora, e para sempre (Jo 14.16-18/At 9.31).[10]

 

Ao participarmos da Ceia, enquanto aguardamos o Seu retorno, recordamos o feito do Deus encarnado a favor de Seu povo, realizado uma vez por todas e para sempre. Na cruz Ele mesmo declarou ter consumado a sua obra (Jo 19.30).

 

Maringá, 19 de junho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

Fonte: www.hermisten.com.br/

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