BONS COMANDANTES NÃO ABANDONAM O NAVIO

BONS COMANDANTES NÃO ABANDONAM O NAVIO
julho 09 06:00 2019

A ética do cuidado pastoral.

 

Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida pelas ovelhas. João 10:11

 

Nestes dias veio-me a lembrança o triste episódio envolvendo o capitão do cruzeiro Costa Concórdia, no naufrágio ocorrido na costa da Itália próximo a ilha de Giglio. De acordo com o que foi noticiado ha época na imprensa, o capitão Francesco Schettino teria se negado a prestar socorro aos tripulantes do Cruzeiro, abandonando o navio.

Este acontecimento foi registrado em uma gravação que se tornou pública, em que o capitão Gregorio De Falco, da Capitania do Porto de Livorno, e o capitão do Costa Concórdia, Francesco Schettino travaram no referido episódio:

De Falco: “O que você está fazendo comandante?” Schettino: “Vou para lá para coordenar os trabalhos de socorro…” De Falco: “Quem está coordenando lá? Volte agora a bordo para coordenar o socorro a bordo. Você está se recusando?” Schettino: “Não, não me recuso.” De Falco: “Você está se recusando a voltar a bordo? Diga-me por qual motivo você não vai para lá?” Schettino: “Eu não estou indo para lá porque outro barco (bote de socorro) chegou…” De Falco: “Volte a bordo, é uma ordem. Você não deve pensar em outra coisa. Você declarou o abandono do navio. Agora sou eu quem comanda. Volte a bordo! Entendido? Ouviu? Vá lá e entre em contato diretamente do navio. No local já há o meu socorro aéreo.” Schettino: “Onde está o seu veículo de socorro?” De Falco: “Ele está na proa. Vá para lá. Já há corpos, Schettino.” Schettino: “Quantos?” De Falco: “Eu não sei. Um com certeza, eu fui informado. É você que tem que me dizer quantos, caramba.”

Por este episódio a promotoria italiana o acusou de homicídio culposo múltiplo, naufrágio e abandono do navio. O telejornal Fantástico da Rede Globo de televisão denominou esta atitude de Schetino como “um episódio que a Itália quer esquecer”.

Toda a imagem de grande comandante que Schettino trazia até aquele momento afundou naquela costa, naquela fatídica noite de sexta-feira. De Falco porém foi aclamado como herói, pela postura integra e corajosa que ele demonstrou. Esta história tem percorrido o mundo, despertando a atenção das mais diversas pessoas porque justamente uma das máximas mais conhecidas de nossa cultura é a de que bons comandantes não abandonam o navio.

Jesus nos apresenta outra imagem acerca da liderança integra, imagem esta, que ele atribuiu a si mesmo. A metáfora do pastor e das ovelhas. O evangelho segundo João registra que o Senhor disse: Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida pelas ovelhas. O mercenário, que não é pastor, a quem não pertencem às ovelhas, vê vir o lobo, abandona as ovelhas e foge; então, o lobo as arrebata e dispersa. O mercenário foge, porque é mercenário e não tem cuidado com as ovelhas. [João 10:11-13]

Nesta passagem apresenta-se um contraste, nela é demonstrado que o bom pastor não abandona as suas ovelhas, pois estas lhe pertencem e ele não está disposto a entrega-las facilmente. O mercenário, por sua vez, é alguém que no contexto agropastoril daqueles dias, é contratado para ser um pastor temporário, recebendo para esta finalidade o seu pagamento.

No dia-a-dia, ambos aparentam ser iguais, porém na hora da adversidade, do perigo iminente, do risco de vida. O mercenário revela que sua identidade não é a de pastor, pois na hora do perigo, ele abandona as ovelhas. O bom pastor, contudo, está disposto a enfrentar os inimigos, e a sacrificar-se pelo resgate de suas ovelhas. O mercenário contrasta com o bom pastor pelo seu mau caráter revelado em sua atitude desleal diante do real perigo.

Nesta imagem de Jesus, o mercenário não é só aquele que apegando-se ao dinheiro faz o seu ofício a ele condicionado, antes, pode representar também aquele que tenha medo de encarar a dor, o desconforto, e as implicações éticas de sua vocação. Alguém que na hora em que é mais necessário fracassa como suporte e proteção, tornando-se uma grande frustração para todos aqueles que dele esperavam algum bem.

Sobre o valor da integridade considero oportuna a reflexão de Fred Smith quem diz que: O caráter é muito importante por que não pode ser totalmente avaliado; se for deficiente, porém, falhará no momento em que mais precisarmos dele.[1]

Jesus é enfático ao dizer que ele é o bom pastor. Ele não só possui o caráter aprovado, mas possui em si mesmo toda a força e poder.

Mateus Henry ao comentar sobre esta passagem afirma que: “Cristo é o Bom Pastor; muitos não eram ladrões, todavia foram negligentes com seu dever, e o rebanho foi muito danificado por seu descuido. […] Ele se ofereceu para ser o Salvador: Eis aqui, Eu venho. A necessidade de nosso caso o pedia, e Ele se ofereceu para ser o sacrifício. Foi o que oferece e a oferta, de modo que a entrega de sua vida foi a oferta de si mesmo. Daí fica claro que Ele morreu no lugar e como substituto dos homens para lograr que eles fossem liberados do castigo do pecado, para obter o perdão do pecado para eles; e para que sua morte adquirisse esse perdão.”[2]

Em sentido histórico-redentivo, somente Jesus é o bom pastor, que entrega a vida pelas ovelhas, somente ele, as detêm, pois as comprou pelo seu precioso sangue, e exclusivamente por seu sacrifício vicário às mesmas obtêm a vida eterna. Jesus neste sentido é o nosso único pastor.

Porém, na perspectiva da liderança em geral, no contexto da responsabilidade que temos perante aqueles nos foram confiados. Considerando a ética do cuidado, revelada nas escrituras sagradas e do exemplo de Jesus, somos desafiados a num naufrágio não abandonarmos o navio, e diante dos lobos não sacrificarmos as ovelhas.

 

Algumas perguntas para reflexão: [1] Em sua opinião, qual a importância da ética para o exercício da liderança? [2] Por que o episódio envolvendo o capitão do Navio Costa Concórdia chamou tanto atenção? O que este episódio nos ensina sobre a ética do cuidado? [3] A luz do exemplo de Jesus, que é o bom pastor, o que devemos fazer diante das responsabilidades que nos foram confiadas?

[1] SMITH, Fred, O impacto da Liderança com integridade, Editora Vida, pág.18

[2] HENRY, Mateus, Comentário Bíblico, versão eletrônica

Manoel G. Delgado Júnior. Ministro Religioso, pastor efetivo-eleito da Igreja Presbiteriana de Lucas do Rio Verde. Graduado em  Liderança Avançada pelo Instituto Haggai, Mestre em Teologia Prática pela FTML-SP, Doutorando em Teologia pelo Seminário Servo de Cristo – SP. Professor de Teologia desde 2004. Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil. Casado com Alzenir e pai de Aninha. Email: elerdelgado@gmail.com

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