”Economizar também é saber gastar bem”, garante Mara Luquet

agosto 05 11:11 2019

Especializada em finanças pessoais, fundadora da agência MyNews diz que são os mais abastados que terão de aprender a lidar com dinheiro para garantir aposentadoria melhor. Para a jornalista, informação de boa qualidade é o segredo para proteger o patrimônio

A queda dos juros vai exigir que os brasileiros aprendam a correr mais riscos em seus investimentos, diz a fundadora da agência MyNews, a jornalista Mara Luquet. O aprendizado, no entanto, não se restringirá aos que têm dinheiro para aplicar. Uma boa educação financeira também será vital na hora de se gastar os recursos. “As pessoas terão que ter as informações corretas para saber fazer escolhas”, afirma.
Na avaliação de Mara, mesmo aqueles que têm um nível mais elevado de renda devem se precaver, sobretudo depois da reforma da Previdência. Para garantir uma aposentadoria melhor, terão que administrar bem os recursos. Se não fizerem isso, verão o padrão de vida cair. Portanto, acrescenta ela, saber lidar com o dinheiro independe de classe social. “Pais e professores têm papel importantíssimo para disseminar o conhecimento sobre finanças”, ressalta.

“O caminho para manter o patrimônio protegido é informação de boa qualidade. Fugir das fantasias e de promessas mirabolantes”, recomenda Mara. Ela afirma, ainda, que dívidas só devem ser contraídas em caso de necessidade, sobretudo se for levado em conta que linhas de crédito, como o cheque especial e o cartão de crédito, têm juros superiores a 300% ao ano. “Juros de mais de 300% certamente levarão a uma situação de risco, com a pessoa, muitas vezes, ficando inadimplente.”
Para a fundadora do MyNews, os pais que não têm o hábito do planejamento financeiro não conseguirão passar aos filhos a importância de um orçamento equilibrado. Mas sempre é possível aprender. “Construir um patrimônio leva tempo. Porém, é possível, se você tiver tempo, informações corretas e, claro, um pouco de disciplina para guardar dinheiro”, diz. A seguir, os principais trechos da entrevista ao Correio.

Por que os brasileiros têm tanta dificuldade para lidar com dinheiro?

É cultural. Vivemos um período de inflação muito alta por muitos anos. Como a inflação chegou a 80% ao mês, é muito difícil mesmo criar o hábito do planejamento financeiro. Os pais não aprenderam, não conseguem passar para os filhos e por aí vai. Mas, veja, você colocou muito bem: lidar com o dinheiro. Quem também só sabe guardar não tem uma relação saudável com o dinheiro. É importante ter o equilíbrio.

Muito se fala em educação financeira, mas esse tema ainda é desconhecido da grande maioria da população. O que fazer para mudar esse quadro?

Primeiro, vamos esclarecer o que é educação financeira. Vejo muito conteúdo de educação financeira focando em economizar, economizar, economizar. Para mim, educação financeira é outra coisa. É saber gastar, ter as informações corretas para saber fazer escolhas, como taxas de juros, spreads, custo da dívida, renda variável, renda fixa etc. Para mudar, acho importante a participação de pais e professores nesse processo. Pais, com o exemplo, professores, com a informação e o conhecimento. Por exemplo, aprendemos função exponencial na escola, mas não aprendemos a importância dela na nossa vida financeira.

O país está prestes a ter um novo regime previdenciário. O que isso vai exigir da população? Ainda dá tempo para poupar?

A verdade é que, mesmo com as novas regras da Previdência, a grande maioria da população ainda estará coberta pelo teto do INSS, porque, no Brasil, a renda ainda é muito baixa. É o topo da pirâmide que precisa ver que manter seu padrão de vida, mesmo depois de aposentado, será de sua própria responsabilidade. A boa notícia é que produtos e serviços na área de investimentos melhoraram muito nas últimas décadas. Estão mais acessíveis, mais transparentes e cada vez mais aumenta o cardápio para investidores de todos os tamanhos.

Com os juros nos menores níveis da história, ainda dá para ser conservador ou é preciso correr riscos? Que caminho seguir para manter o patrimônio protegido?

O caminho para manter o patrimônio protegido é informação de boa qualidade. Fugir das fantasias e de promessas mirabolantes. Você pode ser conservador, mas, mesmo uma carteira conservadora terá que avaliar alternativas melhores para diferentes prazos de investimentos. Mesmo uma carteira concentrada em renda fixa pode melhorar sua rentabilidade diversificando em prazos ou risco de crédito, por exemplo. Prazos mais longos tendem a embutir um retorno maior, assim como crédito privado, ou seja, títulos emitidos por empresas, que devem ter retorno maior do que os títulos públicos.

Investir em Bolsa de Valores é um bom negócio, mesmo com o Ibovespa acima dos 100 mil pontos? Como tirar proveito do mercado de ações?

O mercado de ações tem que entrar na vida do investidor brasileiro da forma correta, não como um cassino ou especulação com dinheiro de curto prazo. Há espaços para mais altas na Bolsa? Os analistas dizem que sim, se a economia brasileira retornar sua vitalidade. A Bolsa reflete a expectativa e a saúde da economia real e as perspectivas para suas empresas.

O governo promete alívio nas finanças dos trabalhadores ao liberar o saque de parte do FGTS. Vale a pena? O que fazer com esse dinheiro?

O rendimento do FGTS é tão baixo que, sim, vale a pena resgatar e aplicar em alternativas com retornos maiores. Mas a população ainda está muito endividada. Então, é possível que uma parte seja direcionada a pagar parte das dívidas e, também, para o consumo. Aliás o que o governo quer é que o dinheiro vá para o consumo, para dar um fôlego para a economia.

Com os juros cobrados pelos bancos, que passam de 300% ao ano em algumas linhas, qual é o risco de se endividar? É inadimplência na certa?

Juros de mais de 300% podem não ser inadimplência na certa, porque o brasileiro, apesar do que dizem por aí, quer pagar suas dívidas. Agora, é sofrimento, porque a pessoa entrará certamente em situação de risco e sofrerá para conseguir pagar, com atrasos e, muitas vezes, ficando inadimplente.

É possível acreditar que ainda veremos juros de empréstimos e financiamentos mais parecidos com os do mundo civilizado? Por que os bancos cobram tão caro nas operações de crédito?

Acho que esta é a nova fronteira. Primeiro, vencemos a hiperinflação; agora, conseguimos vencer os juros básicos altos. O próximo passo é vencer o spread bancário (a diferença entre o que os bancos pagam aos investidores e cobram dos devedores). A agenda BC+, claramente, está com esse foco. Aumentar a concorrência faz parte do processo, e o fortalecimento das cooperativas de crédito e das fintechs ajuda muito nesse sentido.

O governo tem alguma culpa pelo crédito ser tão caro no Brasil? Por quê?

Todos nós temos culpa nesse cartório. Mas acho que, nos últimos anos, o Banco Central tem feito um esforço grande, reduzindo compulsório (recursos que os bancos são obrigados a repassar à autoridade monetária) e estimulando concorrência, por exemplo. Mas nós, consumidores, precisamos ter cidadania financeira e fazer a nossa parte, nos informando corretamente e utilizando esses instrumentos, como portabilidade de crédito, só para citar um exemplo, para fazer a concorrência funcionar.

Que dicas são importantes para quem está começando a investir? Há caminhos seguros a seguir?

Não há investimento sem risco. Conheça sempre qual o risco a que você estará exposto antes de colocar a mão no bolso. E sempre, sempre desconfie de quem lhe acena com ganhos exorbitantes, fáceis e rápidos. Nós não somos uma nação de idiotas, que não ficam ricos rapidamente porque não sabem. Investir tem risco, e construir um patrimônio leva tempo, simples assim. Mas é possível, se você tiver tempo, informações corretas e, claro, um pouco de disciplina para guardar dinheiro.
Fonte: https://www.correiobraziliense.com.br
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