{"id":20019,"date":"2019-09-25T10:54:55","date_gmt":"2019-09-25T14:54:55","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cfnews.com.br\/portal\/?p=20019"},"modified":"2019-09-25T10:54:55","modified_gmt":"2019-09-25T14:54:55","slug":"a-importancia-das-perdas-na-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cfnews.com.br\/portal\/a-importancia-das-perdas-na-vida\/","title":{"rendered":"A IMPORT\u00c2NCIA DAS PERDAS NA VIDA"},"content":{"rendered":"<p>Voc\u00ea gosta de perder? Obviamente que n\u00e3o. Ningu\u00e9m gosta de perder, porque \u00e9 inerente \u00e0 natureza humana querer ganhar. Mas, perder faz parte da vida, principalmente quando a palavra <em>&#8220;perda&#8221;<\/em> \u00e9 usada para falar das mudan\u00e7as necess\u00e1rias ao desenvolvimento da vida. Perdemos o \u00fatero materno ao nascer e perdemos a realidade desta vida ao morrer, e, nesse meio tempo onde nossa vida acontece, vivemos de perdas que nos levam a dar novos passos nas rela\u00e7\u00f5es humanas e nas experi\u00eancias vividas.<\/p>\n<p>A vida come\u00e7a com a perda de um ambiente agrad\u00e1vel e seguro, ou seja, o ventre materno. De repente tudo muda: chegamos ao mundo indefesos, chorando, e ficamos completamente dependentes da nossa m\u00e3e que nos protege e nos alimenta. Essa depend\u00eancia materna \u00e9 tamanha, que no in\u00edcio n\u00e3o sabemos nos distinguir dela. Muitos de n\u00f3s atingimos a maioridade, constitu\u00edmos fam\u00edlias, exercemos profiss\u00f5es, e ainda continuamos precisando da m\u00e3e. Mas, bem cedo na vida aprendemos que precisamos perder, desistir e abandonar, para sermos seres \u00e0 parte. Quando adquirimos a consci\u00eancia de que somos pessoas e que temos um &#8220;eu&#8221; distinto, percebemos tamb\u00e9m que nossa m\u00e3e vai nos abandonando. Ela anda cada vez mais adiante de n\u00f3s at\u00e9 que desaparece e temos que seguir a vida depois dessa perda t\u00e3o essencial para que possamos desenvolver, crescer e viver a nossa vida.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o com a m\u00e3e ou seu substituto \u00e9 t\u00e3o importante, que todas as nossas experi\u00eancias de perdas na vida relacionam-se com esse primeiro rompimento, que talvez tenha sido a ren\u00fancia mais dif\u00edcil. E, conquanto n\u00e3o lembremos, jamais esquecemos desse tempo paradis\u00edaco. Conscientes ou inconscientemente, tentamos restaurar aquela conex\u00e3o. Isso pode acontecer de modo saud\u00e1vel ou doentio. Tentamos resolver aquela separa\u00e7\u00e3o das mais variadas maneiras, atrav\u00e9s da religi\u00e3o, do sexo, da arte, das drogas, do dinheiro, at\u00e9 mesmo da boa forma f\u00edsica. \u00c0s vezes temos a sensa\u00e7\u00e3o ilus\u00f3ria que voltamos \u00e0s origens para logo concluir que continuamos buscando reatar uma esp\u00e9cie de perda essencial que n\u00e3o sabemos onde, como, e quando aconteceu. E assim seguimos, perdendo e ganhando.<\/p>\n<p>Mas, se \u00e9 real o desejo de manter a conex\u00e3o original, \u00e9 igualmente verdade que desejamos nos soltar, correr para a vida, perder sempre, para sempre ganhar, porque \u00e9 assim que a vida acontece em todas as suas fases. Essa iniciativa \u00e9 nossa, sair do colo, engatinhar, ficar de p\u00e9, andar at\u00e9 \u00e0 porta, atravessar a rua e sair para a escola, o trabalho, o casamento, e se poss\u00edvel ir para o outro lado do mundo. Enquanto isso, vamos experimentando perdas necess\u00e1rias para que possamos continuar como pessoas maduras e saud\u00e1veis.<\/p>\n<p>Quando \u00e9ramos meninos, fal\u00e1vamos como meninos, sent\u00edamos como meninos, pens\u00e1vamos como meninos; quando chegamos a ser adultos, desistimos das coisas pr\u00f3prias de meninos, visto que, no processo de desenvolvimento da vida, ganhamos a consci\u00eancia de quem somos, do que fomos e do que poderemos vir a ser. Essa \u00e9 a percep\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise quanto a nossa estrutura mental: os <em>desejos infantis<\/em> voltados para o prazer que nunca se satisfaz e que perduram na vida, o <em>autoconhecimento<\/em> que \u00e9 a consci\u00eancia de n\u00f3s mesmos, sede da mem\u00f3ria e do pensamento, e, nossos <em>valores<\/em>, princ\u00edpios norteadores que nos brecam e orientam. Quando esse n\u00edvel de desenvolvimento come\u00e7a a se configurar em nossas vidas no final da inf\u00e2ncia e na pr\u00e9-adolesc\u00eancia, podemos demonstrar boa parte da identidade individual por causa dos rompimentos (perdas) experimentados nos primeiros anos na vida.<\/p>\n<p>Paradoxalmente vivemos em busca de aproxima\u00e7\u00e3o e ao mesmo tempo queremos distanciamento. Nascemos completamente dependentes mas s\u00f3 crescemos \u00e0 medida que assumimos uma identidade pr\u00f3pria. A m\u00e3e n\u00e3o precisa ser tudo o tempo todo para o filho. Nas palavras de Winnicott, ela precisa apenas ser <em>&#8220;suficientemente boa&#8221;.<\/em> Assim sendo, ela estar\u00e1 fazendo o bastante para que sua crian\u00e7a aprenda a andar com as pr\u00f3prias pernas. O rompimento do cord\u00e3o umbilical e a perda da onipresen\u00e7a materna fazem com que desejos, fantasias, e sonhos da crian\u00e7a se confirmem, se desenvolvam e amadure\u00e7am.<\/p>\n<p>A vida oscila entre a uni\u00e3o e a separa\u00e7\u00e3o (perda), nos fazendo muitas vezes culpados e conscientes de que nunca estamos plenamente seguros e livres, al\u00e9m de termos que assumir a responsabilidade pela pr\u00f3pria vida, instigados por desejos que muitas vezes parecem mais fortes que a vontade consciente, e normas internas e externas que querem nos regular. Isso acontece na din\u00e2mica da vida onde as fases do desenvolvimento v\u00e3o passando, as perdas v\u00e3o acontecendo e as implica\u00e7\u00f5es das mesmas v\u00e3o nos mobilizando, ora nos fazendo entender o quanto estamos ligados \u00e0s perdas passadas e o quanto elas influenciam na vida presente.<\/p>\n<p>Para crescer faz-se necess\u00e1rio perder o mundo ut\u00f3pico da inf\u00e2ncia, sabedores que muitos daqueles sonhos jamais poder\u00e3o acontecer. O que nos \u00e9 poss\u00edvel alcan\u00e7ar acontece dentro de uma realidade com limites, onde n\u00e3o podemos como outrora parecia podermos. Perdemos pessoas amadas, por mudan\u00e7as geogr\u00e1ficas, rela\u00e7\u00f5es interrompidas e pela morte. Tamb\u00e9m n\u00e3o demora para experimentarmos que as rela\u00e7\u00f5es s\u00e3o imperfeitas, que nada parece ser o bastante, levando-nos a querer de volta a simbiose original com a m\u00e3e. Mas, sabendo que isso jamais poder\u00e1 acontecer, tentamos na maioria das vezes inconscientemente reatar esse v\u00ednculo nas amizades, no casamento, nos filhos, e nas rela\u00e7\u00f5es interpessoais.<\/p>\n<p>\u00c9 no casamento e na fam\u00edlia que possivelmente acontecem grandes perdas; onde muitas expectativas s\u00e3o frustradas e onde temos de aprender, \u00e0s vezes a duras penas, que as rela\u00e7\u00f5es entre as pessoas, inclusive entre as que mais amamos, s\u00e3o imperfeitas. Levamos para o casamento muitas expectativas que n\u00e3o se cumprem ou n\u00e3o acontecem como idealizadas. Podem ser proje\u00e7\u00f5es e substitui\u00e7\u00f5es, como por exemplo, o homem que casa desejando encontrar na esposa uma m\u00e3e que cuide dele, ou a mulher que casa com um homem que tem os seus grandes defeitos, para que ela n\u00e3o tenha que assumi-los, e sim ele. As experi\u00eancias de perdas na fam\u00edlia tamb\u00e9m se manifestam na cria\u00e7\u00e3o dos filhos, com o desejo de proteg\u00ea-los de qualquer perigo e ter que admitir que existem limites que fogem ao nosso controle e que muitas das nossas melhores expectativas acabam sendo frustradas ou inconclusas.<\/p>\n<p>As perdas que temos ao longo da vida s\u00e3o necess\u00e1rias. \u00c9 preciso desapegar-se para apegar-se ao novo que vem pela frente. Se n\u00e3o aprendemos a lidar com as perdas, poderemos nos tornar v\u00edtimas da vida que culpam os outros e nunca se satisfazem. Esse n\u00e3o parece ser um estilo saud\u00e1vel de viver. O tempo passa e com ele tamb\u00e9m passamos, envelhecemos e morremos. Os amores mais sinceros e as rela\u00e7\u00f5es mais saud\u00e1veis n\u00e3o escapam das perdas; se n\u00e3o acontecer por outros motivos, ser\u00e1 pela morte. Antes que ela chegue, chegam as rugas, as limita\u00e7\u00f5es da idade, a perda da beleza e o vigor outrora t\u00e3o apreciado. Mas, mesmo na velhice, \u00e9 poss\u00edvel mudar, com aceita\u00e7\u00e3o ou renova\u00e7\u00e3o proporcionais \u00e0 realidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Antonio Francisco da Silva<\/p>\n<p>Psic\u00f3logo Cl\u00ednico &#8211; CRP 18\/04702<\/p>\n<p>psic.antoniofrancisco@gmail.com<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00ea gosta de perder? Obviamente que n\u00e3o. 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