{"id":23242,"date":"2020-02-21T09:26:25","date_gmt":"2020-02-21T13:26:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cfnews.com.br\/portal\/?p=23242"},"modified":"2020-02-21T09:26:25","modified_gmt":"2020-02-21T13:26:25","slug":"vistos-negados-pelos-eua-crescem-45-em-um-ano-brasileiros-relatam-medo-e-humilhacao-em-prisoes-na-fronteira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cfnews.com.br\/portal\/vistos-negados-pelos-eua-crescem-45-em-um-ano-brasileiros-relatam-medo-e-humilhacao-em-prisoes-na-fronteira\/","title":{"rendered":"Vistos negados pelos EUA crescem 45% em um ano; brasileiros relatam medo e humilha\u00e7\u00e3o em pris\u00f5es na fronteira"},"content":{"rendered":"<p>O ac\u00famulo de d\u00edvidas e o fim de um contrato de trabalho levaram a professora Graziele Soares, 35 anos, a tentar cruzar a fronteira do M\u00e9xico para viver nos Estados Unidos, como fez uma irm\u00e3 dela h\u00e1 16 anos. Presa ao tocar o solo norte-americano, a brasileira relata \u201cos piores dias\u201d de sua vida no processo de deporta\u00e7\u00e3o ao Brasil, um risco crescente para os que, sem visto, decidem arriscar a sorte.<\/p>\n<p>Entre outubro de 2018 e setembro de 2019 o n\u00famero de vistos de turismo negados pelos EUA a brasileiros teve um aumento significativo, o maior \u00edndice dos \u00faltimos 14 anos. Houve um crescimento de mais de 45% na compara\u00e7\u00e3o com a taxa do ano fiscal anterior, entre outubro de 2017 e setembro de 2018, chegando a 18,5%, de acordo com dados do Departamento de Estado norte-americano.<\/p>\n<p>No mesmo per\u00edodo, o n\u00famero de brasileiros detidos pela imigra\u00e7\u00e3o norte-americana ao tentar entrar irregularmente no pa\u00eds tamb\u00e9m cresceu exponencialmente, chegando a 17,9 mil presos nos centros de deten\u00e7\u00e3o do departamento de imigra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O n\u00famero de vistos negados n\u00e3o explica, mas se relaciona com o crescimento do n\u00famero de pessoas detidas, no que parece ser uma estrat\u00e9gia para desincentivar novas tentativas de imigra\u00e7\u00e3o de brasileiros aos EUA.<\/p>\n<p>O aperto na pol\u00edtica de imigra\u00e7\u00e3o leva aos dois resultados, para os que tentam o visto de forma legal e para aqueles que, sem essa chance, querem entrar via M\u00e9xico, j\u00e1 que o pa\u00eds n\u00e3o exige mais vistos de brasileiros.<\/p>\n<p>Os dados do Departamento de Estado, desde 2006, mostram que a parcela de vistos negados a brasileiros foi caindo rapidamente daquele ano, em que estava em torno de 13%, at\u00e9 2014, quando chegou a 3,2%. Em 2014 e nos dois anos anteriores, as negativas estiveram pr\u00f3ximas do limiar de 3%, sempre dado pelo governo norte-americano como o limite que o Brasil teria que baixar para entrar na sonhada lista de pa\u00edses que poderiam negociar o fim do visto.<\/p>\n<p>Em 2015, no entanto, as negativas subiram um pouco, para 5,4% \u2014de acordo com fontes ouvidas pela Reuters, possivelmente uma resposta ao in\u00edcio de uma crise econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>O salto, no entanto, come\u00e7ou em 2016, quando alcan\u00e7ou 16,7% \u2014nesse caso, explica uma das fontes, causado pela soma de um ano eleitoral nos EUA em que a pol\u00edtica de imigra\u00e7\u00e3o j\u00e1 era um tema central e a sensa\u00e7\u00e3o, entre os brasileiros, de que, com o fim do governo do democrata Barack Obama, a situa\u00e7\u00e3o ficaria mais dif\u00edcil.<\/p>\n<p>\u201cNos meses entre a elei\u00e7\u00e3o e a posse do atual presidente americano (Donald Trump), houve um aumento percept\u00edvel, motivado pela sensa\u00e7\u00e3o de urg\u00eancia\u201d, explicou uma fonte do governo brasileiro que acompanha a situa\u00e7\u00e3o dos imigrantes.<\/p>\n<p>Em 2017 e 2018, os vistos recusados ficaram um pouco acima de 12%, para ent\u00e3o saltarem para os 18,5% atuais.<\/p>\n<p>A quantidade de brasileiros presos e as negativas de vistos s\u00e3o consideradas pelas fontes consultadas pela Reuters como duas faces da mesma moeda: o aumento do controle das fronteiras e a inten\u00e7\u00e3o de dissuadir novas levas de imigrantes.<\/p>\n<p>\u201cAcredito que o que aumentou n\u00e3o foi tanto o n\u00famero de brasileiros tentando emigrar, mas sim o rigor das autoridades locais. Temos aqui uma clara inten\u00e7\u00e3o dissuas\u00f3ria\u201d, avaliou a fonte.<\/p>\n<div><\/div>\n<p>Em contato com as autoridades do pa\u00eds, um dos brasileiros presos e deportados contou que ouviu de um dos guardas no centro de deten\u00e7\u00e3o onde ficou que ao voltar para o Brasil deveria contar aos amigos no Brasil todas as dificuldades que passou para que outros n\u00e3o tentassem o mesmo caminho, contou a fonte.<\/p>\n<p>\u201cCAI-CAI\u201d<\/p>\n<p>Em El Paso, onde a maior parte dos brasileiros que tentam cruzar a fronteira irregularmente fica presa, o tratamento aos imigrantes \u00e9 mesmo o de dissuadir novas tentativas.<\/p>\n<p>\u201cOlha, a impress\u00e3o que a gente tem \u00e9 que tudo \u00e9 para a gente se sentir humilhada e n\u00e3o querer mais voltar. E conseguiram. Foram os piores dias da minha vida\u201d, contou \u00e0 Reuters a professora Graziele Soares, 35 anos, uma das brasileiras deportadas no voo que chegou ao Brasil no dia 8 deste m\u00eas.<\/p>\n<p>Ela, como as demais mulheres ouvidas pela Reuters, conta que ficaram presas por cerca de 20 dias, at\u00e9 serem deportadas. Nesses dias, n\u00e3o tinham informa\u00e7\u00e3o, s\u00f3 puderam tomar banho duas ou tr\u00eas vezes. Tiveram que por fora todos os seus pertences, com exce\u00e7\u00e3o dos documentos.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 feito para a gente querer voltar (para o Brasil) mesmo\u201d, disse Fiama In\u00e1cio, 27 anos.<\/p>\n<p>Como as outras pessoas ouvidas pela Reuters, Graziele, que vive em Governadores Valadares, deixou o Brasil em janeiro, com o marido e o filho de 10 anos. Com o fim do contrato de trabalho como professora na rede municipal e d\u00edvidas acumuladas, planejou por seis meses tentar a vida dos EUA.<\/p>\n<p>\u201cMinha irm\u00e3 que j\u00e1 vive legal l\u00e1 me incentivou, me deu<\/p>\n<p>uma ajuda, n\u00f3s vendemos algumas coisas e fomos. Eu fiz por causa das d\u00edvidas mesmo\u201d, contou Graziele.<\/p>\n<p>Em fevereiro de 2019, a professora e sua fam\u00edlia j\u00e1 tinham tentado legalmente o visto, mas foi recusado. \u201cS\u00f3 me disseram que n\u00f3s est\u00e1vamos \u2018inabilitados para entrar no pa\u00eds\u2019\u201d, contou. Dessa vez, nem resolveu tentar.<\/p>\n<p>A professora, assim como Fiama e a agricultora Sidn\u00e9ia Pereira, 36 anos, resolveu juntar a fam\u00edlia e tentar o que chamam de \u201ccai-cai\u201d, o sistema chamado pelos norte-americanos de \u201ccatch and release\u201d, em que o imigrante irregular, ao ser pego pela imigra\u00e7\u00e3o e pedir asilo, era solto e tinha permiss\u00e3o para viver nos EUA at\u00e9 uma decis\u00e3o judicial. A maioria, sem endere\u00e7o fixo, dificilmente \u00e9 encontrada pelas autoridades novamente.<\/p>\n<p>\u201cMinha irm\u00e3 foi assim em junho do ano passado e foi tudo bem. Ficou um dia em um abrigo e foi liberada. A gente pensou que se foi tudo bem com ela, valia a pena tentar\u201d, contou Fiama. Com marido e a filha de 6 anos, a jovem costureira, que mora em Goi\u00e2nia (GO), decidiu tentar.<\/p>\n<div><\/div>\n<p>No entanto, a lei norte-americana mudou no final do ano passado, justamente pela alega\u00e7\u00e3o de que os imigrantes nunca mais se apresentavam \u00e0 Justi\u00e7a e a maioria n\u00e3o tinha raz\u00f5es v\u00e1lidas para pedir asilo.<\/p>\n<p>Atualmente, os imigrantes s\u00e3o presos na fronteira M\u00e9xico-EUA, levados para um dos centros de deten\u00e7\u00e3o no lado norte-americano, onde homens e mulheres s\u00e3o separados \u2014no caso das brasileiras, os filhos ficaram com as m\u00e3es. L\u00e1, depois de alguns dias, s\u00e3o ouvidos em uma entrevista, n\u00e3o sabem por qual autoridade, por um telefone. Ao terem a entrada negada, entram na lista de deporta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A nova lei ajudou a engordar a quantidade de pessoas presas nas fronteiras, j\u00e1 que a informa\u00e7\u00e3o de que o \u201ccai-cai\u201d mudou n\u00e3o chega a muita gente. E a dificuldade de tirar vistos s\u00f3 aumenta.<\/p>\n<p>Fiama nem mesmo cogitou visto. Lembra que a irm\u00e3 chegou a tentar quando ainda era casada, tinha empresa em seu nome, registro e todos os documentos, e pretendia apenas fazer turismo. Ainda assim, teve o visto negado. \u201cEu que n\u00e3o tenho carteira assinada, n\u00e3o tenho casa pr\u00f3pria, que ia adiantar? N\u00e3o iam nos dar mesmo\u201d, diz.<\/p>\n<p>Da mesma forma, Sidn\u00e9ia e o marido, pequenos agricultores em Roraima, e a filha de 14 anos, sabiam que n\u00e3o iriam conseguir o visto, j\u00e1 que n\u00e3o t\u00eam renda fixa, carteira assinada e ganham pouco. Mas amigos que vivem nos EUA os incentivaram a tentar o \u201ccai-cai\u201d.<\/p>\n<p>\u201cEstudamos por uns seis meses como fazer. Vendemos um gado que a gente tinha, gastamos uns 8 mil e fomos. A gente queria dar uma vida melhor para nossa filha, ela tem o sonho de fazer faculdade, mas aqui \u00e9 muito dif\u00edcil\u201d, disse<\/p>\n<p>Sidn\u00e9ia e a fam\u00edlia ficaram em Governador Valadares ao retornar, na casa de Graziele, que se ofereceu para hosped\u00e1-las. Largada pelo voo de deporta\u00e7\u00e3o em Belo Horizonte, a fam\u00edlia n\u00e3o tinha dinheiro para voltar a Roraima. Com ajuda de parentes, conseguiu comprar tr\u00eas passagens de \u00f4nibus.<\/p>\n<h3>POL\u00cdTICA MIGRAT\u00d3RIA<\/h3>\n<p>O Itamaraty estima que cerca de 1,7 milh\u00e3o de cidad\u00e3os (brasileiros) vivam nos Estados Unidos hoje, entre regularizados e aqueles que est\u00e3o l\u00e1 irregularmente. Apesar de parecer alto, o n\u00famero \u00e9 pequeno na compara\u00e7\u00e3o com outros grupos de imigrantes. Dados do Bureau do Censo norte-americano apontavam, em 2016, o Brasil apenas como o 20\u00ba pa\u00eds com maior n\u00famero de cidad\u00e3os vivendo nos EUA.<\/p>\n<p>At\u00e9 hoje, o n\u00famero relativamente baixo de imigrantes e um perfil considerado baixo de periculosidade n\u00e3o havia atra\u00eddo a aten\u00e7\u00e3o do governo norte-americano para os brasileiros.<\/p>\n<p>Mas o recrudescimento da pol\u00edtica migrat\u00f3ria, combinado com uma boa vontade do atual governo brasileiro de alterar pol\u00edticas diplom\u00e1ticas para aceitar sem problemas grande n\u00famero de deportados, trouxe os holofotes sobre o problema.<\/p>\n<p>Como mostrou a Reuters em reportagem do ano passado, o governo brasileiro voltou a aceitar deporta\u00e7\u00f5es em massa, em voos pagos pelo governo norte-americano que trazem dezenas de pessoas ao mesmo tempo. O primeiro destes voos chegou em outubro de 2019.<\/p>\n<p>A autoriza\u00e7\u00e3o para os voos com deportados \u00e9 dada pelo governo brasileiro que, desde 2006, n\u00e3o aceitava mais esse tipo de pol\u00edtica.<\/p>\n<div><\/div>\n<p>No final de janeiro, o governo dos Estados Unidos, \u00e0 revelia do Itamaraty, incluiu os brasileiros no MPP, o programa do de Prote\u00e7\u00e3o ao imigrante, que leva para o M\u00e9xico pessoas cruzando ilegalmente a fronteira para que esperem naquele pa\u00eds a audi\u00eancia com um juiz, no caso de um pedido de asilo. Cerca de 50 brasileiros j\u00e1 foram enviados para Ciudad Ju\u00e1rez, do outro lado da fronteira com El Paso (Texas), para aguardarem uma decis\u00e3o.<\/p>\n<p>O endurecimento da pol\u00edtica migrat\u00f3ria do governo norte-americano n\u00e3o atingiu apenas o Brasil. Os dados obtidos pela Reuters mostram, por exemplo, que o percentual de vistos negados a cidad\u00e3os chilenos passou de 2,4% em 2014 para 13,7% em 2015 e continuou subindo. Em 2019, chegou a 15,3%.<\/p>\n<p>Vizinho mais pr\u00f3ximo e com maior popula\u00e7\u00e3o migrante para os EUA, o M\u00e9xico saiu de 15,6% de vistos negados em 2014 para 20,2% em 2015 e chegou a 26,7% em 2019. O movimento \u00e9 o mesmo em praticamente todos os pa\u00edses em desenvolvimento e emergentes listados pelo Departamento de Estado.<\/p>\n<p class=\"Attribution_content\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por:<\/p>\n<div class=\"ArticleHeader_container\">\n<div class=\"lower-container\">\n<div class=\"TwoColumnLayout_container inner TwoColumnLayout_fluid-left\">\n<div class=\"TwoColumnLayout_column TwoColumnLayout_left\">\n<div class=\"ArticleHeader_content-container\">\n<div class=\"BylineBar_first-container ArticleHeader_byline-bar\">\n<div class=\"BylineBar_border-wrap\">\n<div class=\"BylineBar_byline\"><a href=\"https:\/\/br.reuters.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Lisandra Paraguassu\u00a0| Foto:\u00a0 Jose Luis Gonzalez\u00a0\u00a0|\u00a0 Fonte:\u00a0 Reuters<\/a><\/div>\n<div class=\"BylineBar_last-container\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"TwoColumnLayout_column TwoColumnLayout_right\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ac\u00famulo de d\u00edvidas e o fim de um contrato de trabalho levaram a professora &hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":23243,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[59,56],"tags":[],"class_list":["post-23242","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-destaque","category-mundo"],"wps_subtitle":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cfnews.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23242","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cfnews.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cfnews.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cfnews.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cfnews.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23242"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.cfnews.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23242\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":23244,"href":"https:\/\/www.cfnews.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23242\/revisions\/23244"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cfnews.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/23243"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cfnews.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23242"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cfnews.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23242"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cfnews.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23242"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}