- Cuiabá
- SEXTA-FEIRA, 6 , NOVEMBRO 2026
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A produção de milho da segunda safra de 2027 começa a ser planejada sob um sinal de alerta financeiro. Em Mato Grosso, maior produtor nacional do cereal, o custo operacional total está estimado em R$ 6.070 por hectare, enquanto a receita projetada é de R$ 5.825, segundo levantamento do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea). A diferença negativa de R$ 245 por hectare revela a pressão sobre as margens e ajuda a explicar por que agricultores estão revendo investimentos e avaliando alternativas para o próximo ciclo.
O cálculo considera produtividade de 119,64 sacas por hectare e preço médio de R$ 48,69 por saca, referência de setembro. A receita projetada ainda supera o custo operacional efetivo, estimado em R$ 5.508 por hectare, deixando uma diferença positiva de R$ 317. Entretanto, quando são considerados os demais componentes do custo operacional total, o resultado passa a ser negativo. Não se trata de prejuízo já realizado, mas de uma projeção que mostra a necessidade de melhorar os preços, elevar a produtividade ou reduzir despesas para assegurar rentabilidade.
O cenário contrasta com a expectativa de expansão da área cultivada. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projeta crescimento de 3,7% na área brasileira de milho de segunda safra em 2026/27, enquanto o Imea estima aumento de 0,59% em Mato Grosso, alcançando 7,48 milhões de hectares. Os números indicam que o país mantém capacidade de ampliar a produção, mesmo diante de margens financeiras mais apertadas.
Essa diferença entre crescimento da produção e resultado econômico é um dos principais desafios para o agricultor. Uma lavoura pode alcançar boa produtividade e, ainda assim, oferecer retorno insuficiente para cobrir todos os custos. Em propriedades com mil hectares de milho, por exemplo, uma diferença negativa de R$ 245 por hectare representaria R$ 245 mil, caso fossem confirmadas as condições consideradas no levantamento.
A preocupação com os custos também aparece no mercado de fertilizantes, um dos principais componentes das despesas agrícolas. Depois de registrar entregas recordes de 49,1 milhões de toneladas em 2025, o setor trabalha com estimativas de redução de 10% a 15% no volume comercializado em 2026. Se confirmada, a retração indicará maior cautela nas compras, embora não signifique necessariamente queda proporcional no uso de nutrientes nas lavouras.
A redução dos investimentos exige atenção. Diminuir a adubação sem considerar a fertilidade do solo e as necessidades da cultura pode comprometer a produtividade e transformar uma economia imediata em prejuízo na colheita. Em áreas com fertilidade construída ao longo dos anos, ajustes podem ser tecnicamente viáveis, mas precisam ser sustentados por análises e recomendações agronômicas.
Diante desse cenário, produtores de algumas regiões começam a considerar alternativas ao milho. Culturas como gergelim e feijão-mungo despertam interesse por exigirem menor investimento inicial e apresentarem maior flexibilidade de plantio. Em determinadas propriedades, o milheto também aparece como opção para formação de palhada, conservação da umidade e preparação do solo para a safra seguinte.
A diversificação, entretanto, não garante maior rentabilidade. Além da produtividade e dos custos, o agricultor precisa avaliar a existência de compradores, as exigências de qualidade e as condições de comercialização. Uma cultura mais barata para implantar pode representar risco elevado quando não existe mercado estruturado para absorver a produção.
Apesar das dificuldades, há fatores favoráveis ao milho. O avanço antecipado do plantio da soja em partes do Centro-Oeste abre a possibilidade de implantar a segunda safra dentro de uma janela climática mais segura, reduzindo a exposição à falta de chuvas durante o desenvolvimento das lavouras.
Outro fator positivo é a expansão da indústria de etanol de milho, que amplia a demanda doméstica pelo cereal e oferece novas alternativas de comercialização. O crescimento desse mercado contribui para absorver parte da produção, embora não elimine as oscilações de preços provocadas pela oferta nacional, pelas exportações e pelos custos logísticos.
Uma colheita antecipada e volumosa também pode concentrar a oferta e pressionar as cotações em determinados períodos. Por isso, o planejamento comercial ganha importância, especialmente na avaliação de contratos futuros, oportunidades de venda antecipada e custos de armazenagem.
O quadro para 2027 está longe de indicar uma crise generalizada na produção de milho. O Brasil mantém potencial de expansão, demanda industrial crescente e condições produtivas favoráveis em importantes regiões. O desafio é assegurar que o aumento da produção seja acompanhado de resultados econômicos capazes de sustentar a atividade.
Para o produtor, a decisão mais importante já não é apenas quanto plantar, mas quanto investir, qual produtividade será necessária para cobrir os custos e a que preço a colheita precisará ser vendida. Em um mercado de margens estreitas, o planejamento financeiro e a eficiência produtiva serão tão importantes quanto o volume de grãos retirado da lavoura.